Mudei de casa
A partir de agora estou alojado aqui.
Hoje é dia 17 de Novembro e qualquer pessoa o sabe. Até aqui nada de especial. Só que eu gostava imenso que fosse um dia especial. Não direi agora porquê porque se trata de uma cumplicidade. Nem sei se o direi depois. É tudo uma questão de saber quão especial ele terá sido também para mim. Desculpem lá esta baralhada.
A Conferência de ontem, na Biblioteca, sobre o Pax Julia, "Progamar o quê e para quem?" foi, do meu ponto de vista, útil e esclarecedora porque quer o Miguel Lobo Antunes quer o João Aidos, quer três ou quatro intervenientes, focaram aspectos da programação que são, de facto, mais complexos do que à primeira vista podem parecer. Desde a Missão do Pax Julia, seus critérios e metodologias, o papel transformador e formador de públicos que o teatro deve desempenhar, a "dimensão" e a sua adequação dos espectáculos à realidade local e regional, a equipa de trabalho, a independência do programador, o sempre eterno problema dos custos de funcionamento e da programação e o papel que cabe ao Estado e à autarquia, as relações programador/criador, o contrato-programa entre a CMB e o Pax Julia, os critérios das bilheteiras para equilíbrio, tanto quanto possível dos orçamentos, a possibilidade da existência de um conselho artístico, o papel fundamental da comunicação, e tantas outras áreas de manifesto interesse deixaram, concerteza, a noção mais exacta do delicado problema de programação dos espectáculos.
Não foi a primeira vez que os serviços culturais do Município e eu próprio temos discutido estes vários aspectos, mas foi importante que as várias dezenas de interessados se inteirassem da complexidade do tema.
Aguardo com espectativa a segunda conferência do próximo dia 7 de Dezembro. Caminhando, e com tempo, haveremos de encontrar soluções justas e ajustáveis ao bom funcionamento do Pax Julia.
Não quero trocar
o tanto que tenho
pelo incerto de desvendar.
Não irei viajar
calcorrear o mundo imenso
se tenho tudo dentro de mim
ao alcance da minha vontade.
Não irei provar a maçã envenenada,
vencer corsários e ladrões,
embalar-me no mar de espuma.
Não! Quero somente sentir
e trilhar a caminhada
como eu a imagino:
ouvir os segredos do vento,
decifrar as palavras por dizer,
possuir-me da força que sinto
e abstrair-me do tempo,
do espaço e das coisas.
Por detrás das árvores do Parque o sol do entardecer é um rio de lava vermelha que mergulha no horizonte, engolindo cores, espaços e tempos.
Vermelhas as nuvens e escuras as árvores, são o contra luz com riscos negros de sombras esbatidas. A melancolia do pôr-do-sol que desce das alturas cobrindo o ar de silêncios, transformou-se em energia possante para o dia que há-de nascer.
Neste Outono solarengo a luz vermelha desmaiada do fim do dia recorta contra o céu pálido de azuis as árvores vivas do Parque. Ao longe, nos campos ainda castanhos, só esparsas ervas salpicadas de verde ondulam em silêncio. E as sombras já despertas gargalham por mim a dentro como esperanças translúcidas a animar a passarada que se acolhe ao abrigo das árvores.
O meu Sporting, de vez em quando, dá-me estas alegrias. Até houve uma pessoa que eu não esperava que me deu os parabéns pelo meu clube.
Ainda o sol não se pôs e já estou de volta a Beja. Se quiserem saber passei um domingo deslumbrante numa das praias do Algarve que mais gosto, com uma temperatura a pedir manga curta e uma vazante pela manhã verdadeiramente fabulosa.
Meditei, reencontrei-me e inspirei-me. Sinto-me com as baterias mais carregadas e um sorriso quase pateta dentro de mim.
No regresso, pela antiga IC1, em velocidade de passeio, ultrapassou-me um carro verde, grande, com a plataforma interior do vidro trazeiro forrada a carpélio (lembram-se daquela coisa peluda de nylon?) e dois cães castanhos com a cabeça a dar a dar. Não me contive e ri-me durante um par de quilómetros. Parecia que o tempo tinha recuado vinte ou trinta anos.
Pelo caminho vinha engendrando esta coisa parecida a um poema:
Eu sentado
sozinho,
espécie quase única,
naquele areal dourado
batido pelo sol
deste Novembro de S.Martinho;
eu pensando em mim,
eu com o mundo inteiro,
eu e as memórias,
eu e a vida,
por ali fiquei sem relógio
até a sede me vencer.
Superei-me,
fui mais além
e segui por dentro de mim
mais experiente e sabedor,
com outros anseios
e mais vontade
para amanhã.
Depois de uma sexta-feira algo atribulada, embora já completamente recomposto: a meditação e a compreensão de mim fazem milagres, não tenho nada de especial para escrever até porque tenho de rever as provas do próximo livro. Desejo-vos, a todos, sem excepção, um fim de semana alegre, em paz e muita tranquilidade.
É uma notícia do Diário Económico de hoje. "A taxa de desemprego fixa-se em 6,8% e atinge o valor mais alto desde 1998. O número de desempregados fixou-se em 375,9 mil indivíduos, mais 12,1% do que no mesmo período do ano anterior."
Digo agora eu: se a tão propalada retoma da economia obedece a esta lei de que é preciso mais desemprego, confesso que não sei como as pessoas a irão sentir nos seus bolsos. Os números são sempre frios e facilmente nos esquecemos que estamos a falar de pessoas como nós. Imagina-se a angústia e o desespero de tanta gente que de repente fica privada do seu meio de subsistência? Vamos ficar de braços caídos à espera de um hipotético milagre? Quem manda, afinal, neste país? As grandes empresas e os grupos económicos com a cobertura dos governos? E os portugueses está-lhes reservado o papel passivo de espectadores?
Meu recato fica algures
nesta cidade muralhada
sem mar para viajar;
não vejo barcos
nem cordame para velejar.
Nesta cidade muralhada
meu corpo esquecido
aguarda a incerta poesia
de um olhar
ou de uma gaivota
de cabelos de vento
para com ela dançar.
Leve-me o vento
para onde o lume não queime
mas ilumine.
Leve-me no seu voo
a gaivota corajosa
em busca da maré nova
até onde nada me alcance.
Viajo no interior de mim para me descobrir no espelho ou na página e desdobro-me nos outros para saber quem sou. Atarefo-me amiúde na descoberta do outro à procura de idílicos tesouros mas volto sempre para o sortilégio dos segredos do vento que faz espumar o mar.
Vejo-me num promontório de mãos postas ao sol e ser possuído pela força imensa da mãe terra esquecido do tempo. É a beleza única da Deusa que não sei descrever. Continuo a viagem e só me reencontro na página branca antes do poema.
Os meus dias escoam-se
como o passar das páginas
de um livro já lido.
Têm as palavras decoradas
como uma sinfonia
de tantas vezes ouvida.
Mas cada um é distinto
e melhor
e caminham para um livro
por escrever
com palavras novas
e novos perfumes:
rasgão luminoso
que fenderá a noite escura.
Não sei dizer se é decisão recente. Lembro-me sempre do Dalai Lama que dizia que o pior que lhe podia acontecer era ter que tomar uma decisão. A que tomava num momento, apetecia-lhe mudar em momento seguinte. Pessoalmente não temo a tomada de decisões porque as pondero cautelosamente, mas no momento exacto sinto-me sempre um pouco inseguro por não saber se possuo todos os elementos indispensáveis a uma tomada justa de decisão. Mas a que transmito hoje já andava a germinar há alguns dias. E transmiti-a calmamente, de olhos nos olhos, com uma total consciência e tranquilidade. E fi-lo porque acredito que tudo se consegue se soubermos acreditar que o amanhã depende muito da nossa vontade sincera e alicerçada em conceitos que acredito pertencerem âs leis do universo, à harmonia e felicidade dos seres humanos.
Num dia anormalmente calmo, dediquei parte da manhã a fazer Reiky, que me dá uma grande tranquilidade, e a ultimar o segundo livro de poesia que já tem nome - "Sol Incendiado" - e será editado pela Huguin, tal como o primeiro. A capa está catita, a partir de uma fotografia minha de um pôr-do-sol e com alguns artistas a colaborar. São cerca de 130 poemas cuja distribuição ao longo do livro não está muito aprimorada. O primeiro poema traduz exactamente a emoção do dia do lançamento do primeiro livro e é muito especial para mim. Espero que por volta do final do ano esteja cá fora e espero ainda reunir alguns amigos para o acto do lançamento que deverá ser na Biblioteca. Mais perto da data aqui deixarei alguns pormenores.
A Delmira chegou ontem à noite. Já tinha saudades dela e da sua bondade. Fui-lhe dar um beijo e senti-me muito bem por lhe ter testemunhado o meu carinho.
Há aves minúsculas
de corpo denso
a trazer-me a noite
que é vida ausente de espanto.
As ilusões nocturnas
gravitam longe
nas estrelas.
Só no sonho as reinvento,
na carne esvoaçando
com os limites da cinza.
Penumbras sem espasmos,
sítios obscuros
tão negros
como no corpo os tenho.
Queria um poema
onde navegasses
sobre as águas
deste mar por refazer.
Ninfa ou Tágide
pouco importa
desde que nas mãos
tivesses a rosa
que de espinhos me mataram.
No rosto o sol
e flores nos cabelos,
branca como a lua
a amortalhar-me docemente
neste papel em branco
onde o poema já não existe.
esta pedra
onde convocamos
o amadurecer
do sol
a remota
areia
na palma dos olhos
deslembrados
um fio de giz
(um fio apenas)
na lousa
do momento
José Manuel Mendes, in Presságios do Sul (Caminho da Poesia)
Quero agradecer-lhe, João (Nikonmam),pela ajuda em ter contactado o Paulo. Ele enviou-me um mail a que já respondi e agora é só aguardar que me responda a si ou a mim. Mais uma vez obrigado.
Tenho tentado ao longo de mais de duzentos posts, nestes poucos meses na blogosfera, transmitir emoções e sentimentos, pequenos apontamentos do quotidiano, algumas opiniões, mas sempre com a motivação principal de dar a conhecer um pouco o ser humano que está por detrás do homem público que desempenha funções políticas. Normalmente é esse o homem que as pessoas conhecem e algumas estimam, mas tenho-me esforçado por mostrar a outra face, aquela que, no fundo, só muito poucos conhecem e que dá substância ao homem público. Não sei se o terei conseguido mas, pelo menos, esforcei-me.
Não sei se sonhei a dormir ou acordado. Tudo se passava num lugar estranho, talvez numa vida que a memória não regista. Fazia muito frio e era noite e no cubículo de madeira as vidraças estavam partidas. Havia uma pequena lareira com um pote de barro a fumegar e o frio cortava como vidro. Falávamos outra língua e estávamos rotos e de joelhos nus. Abraçavamo-nos fortemente com medo e frio. Lá fora, muito ao longe, ouviam-se bombardas dispersas, ou seriam trovões? Estavas lívida e tinhas os cabelos negros desalinhados para esconder o pavor do olhar. Afagava-te o rosto e dizia-te palavras que não entendia e cada vez te aconchegavas mais a mim. Não sei se eras minha irmã ou minha amada. O frio e o medo não dava para distinguir. O nosso futuro era aquele presente de pesadelo.
Uma luz suave e um tanto inesperada entrou pelo lugar dos vidros partidos. Levantamo-nos lentamente e a medo percorremos os três passos que nos separavam da porta semi destruída. Era uma estrela que brilhava na negrura da noite e nós acompanhámo-la.
Quando nada se tem e nada se sabe, qualquer sinal nos dá alento para caminhar.